A histeria sobre "as bases militares estadunidenses no Paraguai" passou, mas a idéia de que os Estados Unidos têm uma estratégia de estabelecer bases militares nos países sul-americanos de modo a "cercar" o Brasil ainda é forte, especialmente na caserna. Essa idéia é alarmista e não leva em consideração a política doméstica dos Estados Unidos.
Na verdade, as bases e a cooperação militar que Washington mantém nos países sul-americanos, especialmente na Colômbia, atendem a interesses muito concretos de política doméstica, não externa. Ao contrário do que acreditam muitos militares e maioria da sociedade brasileira, essa presença estadunidense na América do Sul não tem por alvo o Brasil, nem a Amazônia. Ela está diretamente relacionada com o tráfico de drogas e, recentemente, com o terrorismo, duas questões de grande apelo doméstico nos Estados Unidos. Obviamente, outros interesses estão em jogo, mas o Brasil não é o maior alvo dessa presença estadunidense. Especialmente porque a América do Sul é uma zona de baixa pressão, com poucos potenciais de conflito e, relativamente, pouca importância geoestratégica.
O que os brasileiros, inclusive os militares, devem entender, é que os Estados Unidos têm apenas ocupado um vácuo de poder deixado pelo Brasil. A isenção brasileira no conflito colombiano é um exemplo. Outro exemplo é o acordo de cooperação militar firmado entre Paraguai e Estados Unidos, pouco tempo depois de o Brasil ter encerrado sua missão militar no país vizinho. Os militares paraguaios, carentes de instrução e de equipamentos, apenas procuraram outro país que pudesse fazer aquilo que o Brasil não quis mais. (Apenas a título de curiosidade, a suposta base aérea "estadunidense", o aeroporto Mariscal Estigarribia, foi construído com a ajuda de engenheiros militares brasileiros).
Felizmente, alguns militares estão cientes que a presença estadunidense, assim como a chinesa, crescem e se mantêm por causa de vácuos de poder deixados pelo Brasil. A Missão Militar brasileira deverá retornar em breve ao Paraguai. O ideal é que o Brasil tivesse uma presença muito maior nos outros países, não por meio de bases, mas com instrutores e técnicos, além de expandir o intercâmbio com outras escolas de comando da América do Sul. É isso o que os Estados Unidos têm feito, e é isso que o Brasil deveria fazer.